MONUMENTOS INVOLUNTÁRIOS: ARTE, MONUMENTO E ESFERA PÚBLICA

 

Após 25 de maio de 2020, dia da execução de George Floyd, cidadão negro estadunidense, pela policia de Mineápolis, uma série de manifestações se espalhou por diferentes países.

Nessa onda de manifestações antirracistas, uma das ações que chamaram a atenção foi o desmantelamento de monumentos públicos. Os alvos foram esculturas que retratavam líderes políticos e econômicos vinculados, de alguma forma, ao racismo, a escravidão e ao colonialismo.

Tais acontecimentos revelam certa urgência de reavaliar a configuração da esfera pública e, mais especificamente, o papel da arte nesse espaço.

A nível institucional, os efeitos desses desmantelamentos estão acontecendo em vários países, estados e prefeituras onde os agentes do poder público estão agindo para deslocar monumentos polêmicos das praças, parques e ruas.

No Brasil, a deputada estadual de São Paulo, Erica Malunguinho encaminhou um projeto de lei que questiona a permanência de alguns monumentos que sustentam uma visão colonial: “as instituições brasileiras devem rever os seus princípios éticos no que diz respeito às políticas de combate ao racismo e à reparação histórica da população negra brasileira”. E o projeto reitera no seu artigo 5o:

Os monumentos públicos, estátuas e bustos que já prestam homenagem a escravocratas ou a eventos históricos ligados a prática escravagista devem ser retirados de vias públicas e armazenados nos Museus Estaduais, para fins de preservação do patrimônio histórico do Estado.

A proposta da deputada confronta a secular politica de exclusão estética/ideológica na esfera pública. A autora do projeto aponta:

Na região central da cidade de São Paulo, por exemplo, encontramos, apenas, três edificações que fazem referência à presença negra: a Herma de Luiz Gama, no Largo do Arouche; a estátua de Zumbi, na Praça Antonio Prado; e a estátua da Mãe Preta, no Largo do Paissandu. As placas, nomes de praças, ruas, escolas, entre outros, são raros. Não pela ausência de negros e negras no espaço urbano, mas sim pelo apagamento dessas existências.

Em contraste a tal escassez, nessa mesma cidade, em locais estratégicos, obras monumentais representam colonizadores e escravagistas, como a estátua de Borba Gato, a Homenagem às Bandeiras, o Monumento a Duque de Caxias, o Monumento a Pedro Álvares Cabral e a estátua Glória imortal aos fundadores de São Paulo.

As manifestações recentes a favor de retiradas de monumentos geraram também uma resistência, expressa em discursos conservadores pautados nas ideias de proteção de patrimônio histórico e nacional, da suposta autonomia estética, da manutenção de valores estabelecidas e da defesa dos ‘heróis nacionais’. O caso mais evidente aconteceu durante a campanha de reeleição de Donald Trump quando o candidato realizou um discurso junto a montanha de Rushmore onde estão esculpidos, em tamanho monumental, os rostos de cinco presidentes do EUA. Trump também ameaçou com mandato de prisão de 10 anos a quem intervir em monumentos públicos.

Paralelamente aos discursos patrimoniais, acontecem perseguição de ativistas e artistas que têm levantado críticas ao tema da colonização. Em agosto de 2020, por exemplo, a artista peruana Daniela Ortiz teve que sair da Espanha depois de receber ameaças nas redes sociais por parte de extremistas.

O tema do monumento é muito amplo e inclui discussões que envolvem política, urbanismo, narrativas históricas e histórias da arte, espaço público, arquitetura, modernização, colonização, economia, geografia, a esfera contemporânea, filosofia, sociologia, ativismos e revoltas sociais sob uma perspectiva decolonial.

As manifestações tornaram ainda mais evidente que a arena pública é um espaço de conflitos ideológicos e os monumentos artísticos, apesar de terem sido implantados, sobre altos pedestais, cercados e protegidos como patrimônios culturais ‘neutros’, hoje já não conseguem passar desapercebidos das arenas politicas.

As intervenções em monumentos oportunizam questões diversas como: é preciso mesmo destruir o monumento?; patrimônio para/de quem? a destruição pode provocar o esquecimento?; como potencializar a problematização de um símbolo ou de uma ideologia?; qual o papel do artista no espaço público?

As proposições aqui denominados de Monumentos Involuntários dialogam com tais questionamentos e fazem as seguintes proposições:

_ Contextualizar, desviar e/ou deturpar a construção de narrativas dominantes na esfera pública, bem como intervir, simular e mudar a forma da relação entre quem usa o lugar e os elementos instalados no lugar de intervenção.

_ Gerar alteração na forma de convivência e no uso da esfera urbana onde os monumentos urbanos estão/estavam inseridos.

_ Apoiar-se em múltiplas proposições e/ou ações performativas, para além da localidade do monumento.

_ Aceitar a impermanência e agir na escala dos corpos vivos, efêmeros e fluxos desviantes.

_ Problematizar e expor forças que atravessam e conflitam a esfera pública.

_ Desviar da indução de sonhar os sonhos do poder.

 

Yiftah Peled

Elaine de Azevedo

 

 

 

INVOLUNTARY MONUMENTS: ART, MONUMENT AND PUBLIC SPHERE

 

After May 25th 2020, the day of the execution of George Floyd, a black American citizen, by the Minneapolis police, a series of demonstrations spread around different countries. In this wave of anti-racist demonstrations, one of the actions that drew attention was the dismantling of public monuments. The targets were sculptures that portrayed political and economic leaders linked, in some way, to racism, slavery and colonialism.

Such events reveal a certain urgency to revaluate the configuration of the public sphere and, more specifically, the role of art in this space. At the institutional level, the effects of these dismantling are taking place in several countries, states and city halls where government officials are acting to displace controversial monuments from squares, parks and streets. In Brazil, the São Paulo state deputy, Erica Malunguinho proposed a law project that questions the permanence of some monuments that support a colonial vision: “Brazilian institutions must review their ethical principles regarding policies to combat racism and the historical reparation of the black Brazilian population”. And her project reiterates this idea: “Public monuments, statues and busts that already pay homage to slavery or historical events linked to the practice of slavery must be removed from public roads and stored in the State Museums, for the purpose of preserving the State's historical heritage”.

The deputy's proposal confronts the secular policy of aesthetic / ideological exclusion in the public sphere. Malunguinho points out: “In the central region of the city of São Paulo, for example, we find only three buildings that refer to the black presence: Herma de Luiz Gama, at Arouche Square ; the Zumbi statue, at Antonio Prado Square; and the statue of Mãe Preta, at Paissandu Square. Signs, names of squares, streets, schools, among others, are rare. Not because of the absence of black men and women in the urban space, but because of the erasure of their existences. In contrast to such scarcity, in the same city, in strategic locations, are set monumental works representing colonizers and slaveholders, such as the Borba Gato statue, the Homage to the pioneers, the Duque de Caxias Monument, the Pedro Álvares Cabral Monument and the Glória statue immortal.

The recent demonstrations in favour of the removal of monuments have also generated resistance, expressed in conservative speeches based on the ideas of protecting historic and national heritage, the supposed aesthetic autonomy, the maintenance of established values ​​and the defence of ‘national heroes’.

The most evident case occurred during Donald Trump's re-election campaign when the candidate gave a speech next to Rushmore Mountain where the faces of five U.S. presidents are sculpted in monumental size. Trump also threatened a 10-year prison term for anyone who intervenes in public monuments.

In parallel to the patrimonial speeches, there is a persecution of activists and artists who have raised criticisms of the theme of colonization. In August 2020, for example, the Peruvian artist Daniela Ortiz had to leave Spain after receiving threats on social media from extremists.

The monument's theme is very broad and includes discussions involving politics, urbanism, historical narratives and art histories, public space, architecture, modernization, colonization, economics, geography, the contemporary sphere, philosophy, sociology, activism and social upheavals under a decolonial perspective. The demonstrations made it even more evident that the public arena is a space of ideological conflicts. The artistic monuments, despite having been implanted, on high pedestals, surrounded and protected as ‘neutral’ cultural heritage, can, no longer, be separated from the political arenas.

Interventions in monuments give rise to several questions, such as: is it really necessary to destroy the monument?; heritage for / from whom? can destruction cause forgetfulness ?; how to enhance the problematization of a symbol or of an ideology ?; what is the artist's role in the public space?

The Involuntary Monuments project dialogue with such questions and make the following propositions:

 _ Contextualize, divert and/or distort the construction of dominant narratives in the public sphere, as well as intervene, simulate and change the form of the relationship between those who use the place and the elements installed in the place of intervention.

_ Generate changes in the form of coexistence and in the use of the urban sphere where the urban monuments are / were inserted.

_ Supporting multiple propositions and / or performing actions, in addition to the location of the monument.

 _ Accept impermanence and act on the scale of living, ephemeral bodies and deviating flows.

 _ Questioning and exposing forces that cross and conflict in the public sphere.

_ Deviating from the induction of dreaming the dreams of power.

 

 

Yiftah Peled

Elaine de Azevedo

contato@contemporaosp.com

+55  (11) 2893 - 2404

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